Por André Vinicius Chemin, neuropsicólogo (CRP 12/12376)
Resumo em 30 segundos: um estudo do Mass General Brigham (EUA), publicado na revista JAMA em 2026, acompanhou 2.684 idosos sem problemas de memória em seis estudos de três continentes. Quem tinha níveis muito altos da proteína p-tau217 no sangue apresentou probabilidade estimada de 38% de desenvolver comprometimento cognitivo em 5 anos. É um passo importante para a detecção precoce, mas o exame não é recomendado como triagem para pessoas sem sintomas e não substitui a avaliação clínica e cognitiva.
O que o estudo descobriu
A doença de Alzheimer começa a se desenvolver no cérebro muitos anos antes de os primeiros esquecimentos aparecerem. Por isso, uma das grandes buscas da ciência é encontrar formas simples de identificar quem está em risco ainda nessa fase silenciosa.
A equipe liderada pela neurocientista cognitiva Rachel Buckley e pela neurologista Reisa Sperling reuniu dados de seis estudos observacionais e ensaios clínicos realizados na América do Norte, no Japão e na Austrália. Todos os 2.684 participantes começaram sem comprometimento cognitivo. Eles fizeram coleta de sangue, exames de imagem cerebral (PET) e avaliações anuais de memória e raciocínio, com acompanhamento que vai de 2004 a 2025.
Ao longo desse período, cerca de 478 pessoas desenvolveram comprometimento cognitivo. Os principais resultados foram:
- Com p-tau217 muito alta, a probabilidade estimada de comprometimento cognitivo foi de 38% em 5 anos.
- Em 10 anos, a estimativa chegou a 78%, mas os autores alertam que esse número se baseia em bem menos observações.
- A p-tau217 continuou associada ao risco mesmo depois de considerar o exame de PET para amiloide e o gene APOE4, o principal fator genético de risco para Alzheimer.

O que é a p-tau217?
No Alzheimer, duas alterações se acumulam no cérebro: as placas de beta-amiloide, entre os neurônios, e os emaranhados de proteína tau, dentro deles. A p-tau217 é uma forma modificada (fosforilada) da tau que pode ser detectada no sangue. Níveis elevados refletem essas alterações cerebrais.
Até pouco tempo, confirmar essas alterações exigia PET, exame caro e pouco acessível, ou coleta de líquor por punção lombar. Um exame de sangue tornaria esse rastreio biológico muito mais simples. A meta de longo prazo, segundo a autora sênior, é chegar a algo parecido com o que hoje se faz com o colesterol: medir o risco cedo e agir antes do dano.
O que muda (e o que não muda) na prática
É aqui que vale ter cautela. Os próprios pesquisadores lembram que ainda não existem tratamentos aprovados para impedir a doença em quem está sem sintomas e descobre ter risco alto. Os medicamentos anti-amiloide aprovados recentemente são indicados para pessoas que já apresentam sintomas iniciais.
Por isso, hoje, o exame não é recomendado como triagem de rotina para quem não tem queixas. Um resultado alterado também não significa que a pessoa terá demência: no estudo, mesmo no grupo de maior risco, uma parte importante não desenvolveu comprometimento cognitivo em 5 anos.
Biomarcador mostra a biologia; ele não mostra como a pessoa está pensando, lembrando e vivendo. Essas são perguntas diferentes, e as duas importam.
Onde entra a avaliação neuropsicológica
Se o exame de sangue indica risco biológico, a avaliação neuropsicológica responde se existe comprometimento cognitivo e qual o seu impacto. Na prática, ela:
- Diferencia esquecimento comum de alteração real, comparando o desempenho da pessoa com o esperado para sua idade e escolaridade.
- Identifica o perfil cognitivo (memória, atenção, linguagem, funções executivas), o que ajuda a distinguir Alzheimer de outras causas, como depressão, efeitos de medicamentos ou outras demências.
- Cria uma linha de base para acompanhar a evolução ao longo do tempo, algo essencial quando há um biomarcador alterado.
- Orienta intervenções, como estimulação cognitiva, adaptações na rotina e apoio à família.
Essa integração é especialmente relevante no Brasil. Segundo o Relatório Nacional sobre a Demência, do Ministério da Saúde (2024), cerca de 8,5% das pessoas com 60 anos ou mais convivem com demência.
Dá para reduzir o risco?
Em parte, sim. A Comissão Lancet sobre demência (2024) estimou que quase metade dos casos no mundo está associada a 14 fatores de risco modificáveis. Entre eles estão baixa escolaridade, perda auditiva, hipertensão, colesterol LDL alto, diabetes, sedentarismo, tabagismo, consumo excessivo de álcool, depressão, isolamento social, obesidade, perda de visão não tratada, poluição do ar e traumatismo craniano.
Cuidar desses fatores beneficia o cérebro em qualquer idade, com ou sem exame de sangue.
Limites do estudo
- Participantes selecionados. Pessoas que entram em pesquisas podem não representar a população geral.
- Janelas de tempo limitadas. Os resultados estimam o risco em 5 e 10 anos, não ao longo da vida.
- Estimativa de 10 anos frágil. O número de 78% se baseia em poucos casos acompanhados por tanto tempo.
- Falta diversidade. Os autores pedem estudos maiores, mais representativos e com acompanhamento mais longo, inclusive em populações como a brasileira.
Perguntas frequentes
O que é a p-tau217?
É uma forma da proteína tau que pode ser medida no sangue. Níveis elevados estão associados às alterações cerebrais típicas da doença de Alzheimer, como as placas de amiloide e os emaranhados de tau.
O exame de sangue diagnostica Alzheimer?
Não sozinho. Ele indica a presença de alterações biológicas e ajuda a estimar risco, mas o diagnóstico de comprometimento cognitivo ou demência depende de avaliação clínica e cognitiva.
Pessoas sem sintomas devem fazer o exame?
Hoje, não é recomendado como triagem de rotina para quem não tem sintomas, porque ainda não existem tratamentos preventivos aprovados para esse grupo. A decisão deve ser discutida com um médico.
Qual o papel da avaliação neuropsicológica?
Ela mede de forma objetiva memória, atenção, linguagem e funções executivas, define se existe comprometimento cognitivo, cria uma linha de base para acompanhar a evolução e ajuda a planejar intervenções.
É possível reduzir o risco de demência?
Sim, em parte. A Comissão Lancet de 2024 estimou que quase metade dos casos de demência está associada a 14 fatores de risco modificáveis, como perda auditiva, hipertensão, sedentarismo, tabagismo, isolamento social e colesterol LDL alto.
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Referências
- Buckley RF, Sperling RA, et al. Prognostic Value of Blood-Based P-Tau217 Levels for Progression to Cognitive Impairment. JAMA, 2026; 336(11): 950. doi:10.1001/jama.2026.12556
- Mass General Brigham. A simple blood test could reveal Alzheimer’s risk 10 years before symptoms. ScienceDaily, 30 out. 2026.
- Livingston G, et al. Dementia prevention, intervention, and care: 2024 report of the Lancet standing Commission. The Lancet, 2024. doi:10.1016/S0140-6736(24)01296-0
- Brasil. Ministério da Saúde. Relatório Nacional sobre a Demência: epidemiologia, (re)conhecimento e projeções futuras. Brasília, 2024.
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui avaliação com médico, neuropsicólogo ou outro profissional de saúde. Se você percebe mudanças persistentes de memória ou comportamento em si ou em alguém próximo, procure orientação profissional.
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